… E os Jovens Eram a Nossa Esperança…

… E os Jovens Eram a Nossa Esperança…

 

Escutei o tiro que matou meu filho”. A frase soa como um soco no estômago.   Com ela, a mãe Lucimar, de Fortaleza, expressou toda sua dor e a de milhares de mães que perdem seus filhos por morte violenta todos os dias no Brasil. Os dados são alarmantes. O Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF informa que o Brasil chegou ao absurdo número médio de 3.65 adolescentes entre 12 e 18 anos assassinados para cada grupo de mil jovens. É o número mais alto desde que começou, em 2005. O Índice de Homicídios na Adolescência – IHA engloba os 300 munícipios brasileiros com mais de 100 mil habitantes e se baseia nos dados do ano de 2014 do Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde.

 

De acordo com a pesquisa, os assassinatos dos adolescentes  no Brasil vêm subindo de forma contínua desde 2012, com maior concentração na faixa dos 15 aos 29 anos. Em 2011, registrou 2,8; em 2012, 3,3; em 2013, 3,4, até alcançar o nível atual. No início da série, em 2005, o IHA era de 2,8. Seu valor mais baixo foi de 2,6, nos anos de 2007 e 2009.

 

O futuro do Brasil, representado por esses jovens, está em risco, alertam os organizadores da pesquisa.  Essa alta incidência de violência letal significa que, se as circunstâncias que prevaleciam em 2014 não mudarem, aproximadamente 43 mil adolescentes serão vítimas de homicídio no Brasil entre 2015 e 2021, apenas nos municípios com mais de 100 mil habitantes.

 

A maior ou menor gravidade da ameaça para o adolescente brasileiro depende em parte da região onde ele vive, um dado que mostra desigualdade regional também nesse quesito. O Nordeste é a que detém o IHA mais alto, de 6,5 adolescentes assassinados por grupo de mil, nos municípios com mais de 100 mil habitantes. O índice mais baixo entre as regiões é o do Sul, de 2,3. O Sudeste chega a 2,8, seguido pelo Norte, de 3,3, e pelo Centro-Oeste, de 3,9.

 

Se comparados por estado, o Ceará (8,71), Alagoas (8,18) e Espírito Santo (7,79) são os Estados onde mais se matam adolescentes. Na outra ponta, com menos mortos, estão São Paulo (1,57), Roraima (1,40) e Santa Catarina (0,93). O Rio de Janeiro está no 12º lugar, com 4,28 mortos a cada grupo de mil jovens.

 

O estudo revela uma situação aterrorizante. Com exceção das crianças de 0 a 11 anos, todas as outras faixas revelam um risco relativo decrescente em relação aos adolescentes. Em outras palavras, o perigo de ser assassinado vem aumentando para os adolescentes em comparação com quase todos os outros grupos etários, o que significa que o homicídio é um fenômeno que vem se concentrando, de forma crescente, nos adolescentes como um público-alvo cada vez mais comum. Meninos que acabaram de deixar a infância e estão sendo impedidos de chegar à juventude.

 

A saída para impedir esse holocausto juvenil, segundo os autores do estudo, é o enfrentamento conjunto de vários setores contra o problema: “Os governos, a sociedade civil, a academia e os próprios jovens devem se mobilizar para evitar que o cenário atual se perpetue e se agrave nos centros urbanos do país, a partir de um compromisso público e da adoção de metas de redução da letalidade juvenil

 

Em relação aos negros, a situação ainda é mais grave. De cada cem pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. O estudo, que traz informações até ano de 2015, estima que a chance de um negro ser assassinado é 23,5% maior em relação a pessoas de outras raças, já descontado o efeito da idade, sexo, escolaridade, estado civil e bairro de residência.

 

O pior: as causas são conhecidas, mas pouco atacadas na sua essência. Vulnerabilidade social, explicitada também pelas deficiências na educação básica, ajudam a entender o cenário, dizem os pesquisadores. “Não se investe adequadamente na educação infantil (a fase mais importante do desenvolvimento humano). Relega-se à criança e ao jovem em condição de vulnerabilidade social um processo de crescimento pessoal sem a devida supervisão e orientação e uma escola de má qualidade, que não diz respeito aos interesses e valores desses indivíduos”. É a conclusão do estudo.

 

Diante desses números não há meio termo. Ou se radicaliza no sentido de inverter as prioridades das políticas públicas destinadas a preservar a nossa juventude (educação em tempo integral e de qualidade; qualificação profissional adequada às suas necessidades dos tempos de hoje; projetos culturais inclusivos; atividades esportivas monitoradas; ampliação dos programas do primeiro emprego e de estágios remunerados, etc.), ou assistiremos de braços cruzados a morte daqueles que esperávamos ser o futuro do Brasil.

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